“Oração aos Moços” – Rui Barbosa

 

ORAÇÃO AOS MOÇOS

Rui Barbosa

Oração aos Moços

Edição popular anotada

por Adriano da Gama Kury

5ª edição

Edições Casa de Rui Barbosa

Rio de Janeiro 1999

Presidente da República

Fernando Henrique Cardoso

Ministro da Cultura

Francisco Correa Weffort

Fundação Casa de Rui Barbosa

Presidente

Mario Brockmann Machado

Diretor Executivo

Luís Eduardo Conde

Diretor de Administração

Tânia Mara Barreto Pacheco

Diretora do Centro de Memória e Documentação

Magaly Cabral

Diretor do Centro de Pesquisas

Rachel Teixeira Valença

Chefe do Setor de Filologia

Adriano da Gama Kury

Revisão

Adriano da Gama Kury e Ivette Sanches do Couto

ISBN 85−7004−187−X

Barbosa, Rui

Oração aos moços / Rui Barbosa; edição popular anotada por

Adriano da Gama Kury. – 5. ed. – Rio de Janeiro : Fundação Casa de

Rui Barbosa, 1997.

52 p.

1. Barbosa, Rui – Discursos – Faculdade de Direito de São Pau−

lo. I. Kury, Adriano da Gama. II. Fundação Casa de Rui Barbosa. III.

Título.

CDU 042.5 Barbosa

Reprodução reduzida de uma página da Oração aos Moços. Por ela se pode ver a ânsia

de Rui, emendando e reemendando, em busca da forma perfeita. [Arquivo da FCRB.]

6

7

ADVERTÊNCIA

Esgotada há tempos a edição crítica que preparei em 1956, quis

a Direção da FCRB, em face da insistência de pedidos, se reimpri−

misse a Oração aos Moços numa edição popular anotada.

Tomando por base o texto de 1956, retirei−lhe o aparato crítico,

multiplicando ao mesmo tempo as notas, destinadas a mais fácil

entendimento do famoso discurso que Rui, por motivo de saúde,

não pôde proferir em pessoa, em 1921, perante a turma de 1920 da

Faculdade de Direito de São Paulo.

Novo cotejo com os manuscritos permitiu se emendassem não

apenas pequenos lapsos que haviam escapado nas colações anterio−

res, senão ainda miúdas e raras gralhas tipográficas que se insinua−

ram – não obstante o carinho com que se fez a revisão – naquela

edição.

Esperamos, todos quantos laboramos no preparo desta edição,

reproduza ela, definitivamente, com a maior fidelidade, o texto de−

sejado pelo alto Patrono desta Casa.

Não se acolheram nas notas de rodapé aqueles numerosos ter−

mos cuja significação se elucida mediante a simples consulta a um

pequeno dicionário da língua (como sejam, por exemplo, inviso,

excídio, pedilúvio, entre tantos mais): a preocupação constante foi,

tão−somente, contribuir para a compreensão cabal das palavras de

Rui à juventude brasileira – palavras de alento e de fé tão atuais e

necessárias hoje em dia –, aclarando o sentido de expressões e cons−

8

truções menos usuais. A Homero Senna agradeço as sugestões sem−

pre lúcidas.

A Oração aos Moços prosseguirá na luminosa trajetória que o

destino lhe traçou, agora numa edição singela, acessível ao grande

público e, sobretudo, num texto de todo fidedigno.

Rio de Janeiro, agosto de 1979.

Adriano da Gama Kury

Obs. – Nas notas de Rui Barbosa se utiliza o asterisco; as do preparador do texto são

numeradas.

9

ORAÇÃO AOS MOÇOS

10

11

Senhores:

Não quis Deus que os meus cinqüenta anos de consagração ao

Direito viessem receber no templo do seu ensino em S. Paulo o selo

de uma grande bênção, associando−se hoje com a vossa admissão ao

nosso sacerdócio, na solenidade imponente dos votos, em que o ides

esposar.

Em verdade vos digo, jovens amigos meus, que o coincidir desta

existência declinante com essas carreiras nascentes agora, o seu co−

incidir num ponto de intersecção tão magnificamente celebrado, era

mais do que eu mereceria; e, negando−me a divina bondade um mo−

mento de tamanha ventura, não me negou senão o a que eu não

devia ter tido a inconsciência de aspirar.

Mas, recusando−me o privilégio de um dia tão grande, ainda me

consentiu o encanto de vos falar, de conversar convosco, presente

entre vós em espírito; o que é, também, estar presente em verdade.

Assim que não me ides ouvir de longe, como a quem se sente

arredado por centenas de quilômetros, mas de ao pé, de em meio a

vós, como a quem está debaixo do mesmo tecto, e à beira do mesmo

lar, em colóquio de irmãos, ou junto dos mesmos altares, sob os

mesmos campanários, elevando ao Criador as mesmas orações, e

professando o mesmo credo.

Direis que isto de me achar assistindo, assim, entre os de quem

me vejo separado por distância tão vasta, seria dar−se, ou supor que

se está dando, no meio de nós, um verdadeiro milagre?

12

Será. Milagre do maior dos taumaturgos. Milagre de quem respi−

ra entre milagres. Milagre de um santo, que cada qual tem no sacrário

do seu peito. Milagre do coração, que os sabe chover1 sobre a criatu−

ra humana, como o firmamento chove1 nos campos mais áridos e

tristes a orvalhada das noites, que se esvai, com os sonhos de

antemanhã, ao cair das primeiras frechas de oiro2 do disco solar.

Embora o realismo dos adágios teime no contrário, tolerem−me3

o arrojo de afrontar uma vez a sabedoria dos provérbios. Eu me

abalanço a lhes3 dizer e redizer de não4. Não é certo, como corre

mundo, ou, pelo menos, muitas e muitíssimas vezes, não é verdade,

como se espalha fama, que “longe da vista, longe do coração”.

O gênio dos anexins, aí, vai longe de andar certo. Esse prolóquio

tem mais malícia que ciência, mais epigrama que justiça, mais enge−

nho que filosofia. Vezes sem conto5, quando se está mais fora da

vista dos olhos, então (e por isso mesmo) é que mais à vista do cora−

ção estamos; não só bem à sua vista, senão bem dentro nele6.

1 que os sabe chover; o firmamento chove … a orvalhada – O verbo chover,

habitualmente impessoal e intransitivo, emprega−o Rui, aqui por duas vezes, com

sujeito (que = o coração; o firmamento) e objeto direto (os = milagres; a orvalhada).

2 oiro: ouro. – Nos vocábulos em que se apresenta a alternância oi/ou, a forma

preferida de Rui é, no geral, a mais raramente usada entre nós. Em dois e coisa,

entretanto, Rui emprega a forma usual hoje em dia, se bem que, na língua escrita do

seu tempo, fossem mais comuns dous e cousa.

3 tolerem−me …; a lhes dizer. – Rui vem usando, e assim o faz até o fim da

Oração aos Moços, o tratamento de segunda pessoa do plural. Causa estranheza,

portanto, a um exame superficial, esta mudança para a terceira pessoa do plural,

explicável, contudo, se atentarmos a que o orador, nesta passagem, se dirige a um

auditório mais geral, especialmente aos seus futuros leitores.

4 dizer e redizer de não: dizer e redizer que não.

5 sem conto. – Variante menos comum da locução sem conta.

6 dentro nele: dentro dele. – A locução dentro em hoje só é freqüente na expres−

são dentro em pouco. Rui, no entanto, quase sempre a preferia, a exemplo dos clássi−

cos.

13

Não, filhos meus (deixai−me experimentar, uma vez que seja,

convosco, este suavíssimo nome); não: o coração não é tão frívolo,

tão exterior, tão carnal quanto se cuida. Há, nele, mais que um

assombro fisiológico: um prodígio moral. É o órgão da fé, o órgão

da esperança, o órgão do ideal. Vê, por isso, com os olhos d’alma7,

o que não vêem os do corpo. Vê ao longe, vê em ausência, vê no

invisível, e até no infinito vê. Onde pára o cérebro de ver, outorgou−

lhe o Senhor que ainda veja; e não se sabe até onde. Até onde che−

gam as vibrações do sentimento, até onde se perdem os surtos da

poesia, até onde se somem os vôos da crença: até Deus mesmo,

inviso como os panoramas íntimos do coração, mas presente ao céu

e à terra, a todos nós presente, enquanto nos palpite, incorrupto, no

seio, o músculo da vida e da nobreza e da bondade humana.

Quando ele já não estende o raio visual pelo horizonte do invisí−

vel, quando sua visão tem por limite a do nervo óptico, é que o

coração, já esclerótico, ou degenerescente, e saturado nos resíduos

de uma vida gasta no mal, apenas oscila mecanicamente no interior

do arcaboiço8, como pêndula de relógio abandonado, que agita, com

as derradeiras pancadas, os vermes e a poeira da caixa. Dele se reti−

rou a centelha divina. Até ontem lhe banhava ela de luz todo esse

espaço, que nos distanceia9 do incomensurável desconhecido, e lan−

çava entre este e nós uma ponte de astros. Agora, apagados esses

luzeiros, que o inundavam de radiosa claridade, lá se foram, com o

extinto cintilar das estrelas, as entreabertas do dia eterno, deixando−

nos, tão−somente, entre o longínquo mistério daquele termo e o ani−

quilamento da nossa miséria desamparada, as trevas de outro éter,

7 d’alma. – São omissas, para situações como esta, as regras sobre o emprego do

apóstrofo nas normas oficiais (V. “Instruções para a Organização do Vocabulário

Ortográfico da Língua Portuguesa”, cap. XIII, anexas ao Pequeno Vocabulário Or−

tográfico da Língua Portuguesa, publicado pela Academia Brasileira de Letras – Rio

de Janeiro, Imprensa Nacional, 1943). – Conservamos essa notação gráfica, uma vez

que a sua supressão implicaria uma alteração formal de todo desaconselhável.

8 arcaboiço: arcabouço. – V. nota 2.

9 distanceia: distancia. – Preferência, hoje evitada, pela variante menos comum.

14

como esse que se diz encher de escuridão o vago mistério do espaço.

Entre vós, porém, moços, que me estais escutando, ainda brilha

em toda a sua rutilância o clarão da lâmpada sagrada, ainda arde

em toda a sua energia o centro de calor, a que se aquece a essência

d’alma. Vosso coração, pois, ainda estará incontaminado; e Deus

assim o preserve.

Metei a mão no seio, e aí o sentireis com a sua segunda vista.

Desta, sobre tudo10, é que ele nutre sua vida agitada e criadora. Pois

não sabemos que, com os antepassados, vive ele da memória, do

luto e da saudade? E tudo é viver no pretérito. Não sentimos como,

com os nossos conviventes, se alimenta ele na comunhão dos senti−

mentos e índoles, das idéias e aspirações? E tudo é viver num mun−

do, em que estamos sempre fora deste, pelo amor, pela abnegação,

pelo sacrifício, pela caridade. Não nos será claro que, com os nossos

descendentes e sobreviventes, com os nossos sucessores e pósteros,

vive ele de fé, esperança e sonho? Ora, tudo é viver, previvendo, é

existir, preexistindo, é ver, prevendo. E, assim, está o coração, cada

ano, cada dia, cada hora, sempre alimentado em contemplar o que

não vê, por ter em dote dos céus a preexcelência de ver, ouvir e

palpar o que os olhos não divisam, os ouvidos não escutam, e o

tacto não sente.

Para o coração, pois, não há passado, nem futuro, nem ausência.

Ausência, pretérito e porvir, tudo lhe é atualidade, tudo presença.

Mas presença animada e vivente, palpitante e criadora, neste regaço

interior, onde os mortos renascem, prenascem os vindoiros11, e os

distanciados se ajuntam, ao influxo de um talismã, pelo qual, nesse

mágico microcosmo de maravilhas, encerrado na breve arca de um

peito humano, cabe, em evocações de cada instante, a humanidade

toda e a mesma eternidade.

10 sobre tudo. – Conservamos separadas as duas palavras, uma vez que o valor

da expressão, “acima de tudo”, o admite, embora o Vocabulário oficial recomende se

escreva sobretudo.

11 vindoiros. – V. nota 2.

15

A maior de quantas distâncias logre a imaginação conceber, é

a da morte; e nem esta separa entre si os que a terrível apartadora

de homens arrebatou aos braços uns dos outros. Quantas vezes

não entrevemos, nesse fundo obscuro e remotíssimo, uma ima−

gem cara? quantas12 vezes não a vemos assomar nos longes da

saudade, sorridente, ou melancólica, alvoroçada, ou inquieta, se−

vera, ou carinhosa, trazendo−nos o bálsamo, ou o conselho, a

promessa, ou o desengano, a recompensa, o castigo, o aviso da

fatalidade, ou os presságios de bom agoiro13? Quantas nos não

vem conversar, afável e tranqüila, ou pressurosa e sobressaltada,

com o afago nas mãos, a doçura na boca, a meiguice no sem−

blante, o pensamento na fronte, límpida, ou carregada, e lhe sa−

ímos do contacto, ora seguros e robustecidos, ora transidos de

cuidado e pesadume, ora cheios de novas inspirações, e cisman−

do, para a vida, novos rumos? Quantas outras, não somos nós

os que vamos chamar esses leais companheiros de além−mundo,

e com eles renovar a prática14 interrompida, ou instar com eles

por alvitre, em vão buscado, uma palavra, um movimento do

rosto, um gesto, uma réstia de luz, um traço do que por lá se

sabe, e aqui se ignora?

Se não há, pois, abismo entre duas épocas, nem mesmo a vora−

gem final desta à outra vida, que não transponha a mútua atração

de duas almas, não pode haver, na mesquinha superfície do globo

terrestre, espaços, que não vença, com os instantâneos de preste−

za das vibrações luminosas, esse fluido incomparável, por onde se

realiza, na esfera das comunicações morais, a maravilha da foto−

grafia à distancia15 no mundo positivo da indústria moderna.

12 Observe−se o uso de minúsculas em seguida a ponto de interrogação, nas se−

qüências interrogativas. Hoje, é acentuada a preferência pela maiúscula.

13 agoiro. – V. nota 2.

14 prática: conversação, palestra.

15 à distancia. – Muito se tem discutido acerca do acento no a nesta locução. Rui

costuma empregá−lo. V., por exemplo, no Discurso no Colégio Anchieta (pág. 3 da

16

Tão pouco medeia do Rio a S. Paulo! Por que16 não consegui−

remos enxergar de um a outro cabo, em linha tão curta? Tente−

mos. Vejamos. Estendamos as mãos, entre os dois pontos que a

limitam. Deste àquele já se estabeleceu a corrente. Rápida como o

pensamento, corre a emanação magnética desta extremidade à

oposta. Já num aperto se confundiram as mãos, que se procura−

vam. Já, num amplexo de todos, nos abraçamos uns aos outros.

Em S. Paulo estamos. Conversemos, amigos, de presença a pre−

sença.

Entrelaçando a colação do vosso grau com a comemoração jubi−

lar da minha, e dando−me a honra de vos ser eu paraninfo, urdis,

desta maneira, no ingresso à carreira que adotastes, um como víncu−

lo sagrado entre a vossa existência intelectual, que se enceta, e a do

vosso padrinho em Letras17, que se acerca do seu termo. Do ocaso

de uma surde18 o arrebol da outra.

Mercê, porém, de circunstâncias inopinadas, com o encerro do

meu meio século de trabalho na jurisprudência se ajusta o remate

dos meus cinqüenta anos de serviços à nação. Já o jurista começava

a olhar com os primeiros toques de saudade para o instrumento,

ed. de 1981, feita pelo Prof. Rocha Lima): “Destes cimos, … o Colégio Anchieta nos

estende à distância os braços”; na Queda do Império (vol. I, Rio, 1921) : “Achava−se

ali à distância um amigo, que me aguardava.” (pág. LXX) ; “Mais fácil é sempre um

não à distância que rosto a rosto.”(pág. LXXII). – Esse é o uso dos nossos melhores

escritores.

16 por que. – No correr de toda a Oração aos Moços Rui escreve separadamente,

por que, tanto na interrogação direta quanto na indireta, coincidindo nisso com as

normas ortográficas oficiais, contestadas por muitos, uma vez que varia o uso dos

escritores a esse respeito.

17 Letras. – Na sua visão humanística, devia Rui achar inseparável do cabal

estudo do Direito o pleno domínio da língua. Daí falar em “padrinho em Letras”, e

não “em Ciências Jurídicas e Sociais”. – Lembrem−se, a propósito, estes dizeres de

San Tiago Dantas: “A língua está para o advogado assim como o desenho para o

arquiteto.”

18 surde (do v. surdir): resulta, provém.

17

que, há dez lustros, lhe vibra entre os dedos, lidando pelo direito,

quando a consciência lhe mandou que despisse as modestas armas

da sua luta, provadamente inútil, pela grandeza da pátria e suas li−

berdades, no parlamento.

Essa remoção da metade total de um século de vida laboriosa

para o desentulho do tempo não se podia consumar sem abalo sen−

sível numa existência repentinamente decepada. Mas a comoção foi

salutar; porque o espírito encontrou logo seu equilíbrio na convic−

ção de que, afinal, chegava eu a conhecer a mim mesmo, reconhe−

cendo a escassez de minhas reservas de energia, para acomodar o

ambiente da época às minhas idéias de reconciliação da política na−

cional com o regímen19 republicano.

Era presunção, era temeridade, era inconsciência insistir na insana

pretensão da minha fraqueza. Só um predestinado poderia arrostar

empresa tamanha. Desde 1892 me empenhava eu em lutar com esses

mares e ventos. Não os venci. Venceram−me eles a mim. Era natural.

Deus nos dá sempre mais do que merecemos. Já me não era pouco a

graça (pela qual erguia as mãos ao céu) de abrir os olhos à realidade

evidente da minha impotência, e poder recolher as velas, navegante

desenganado, antes que o naufrágio me arrancasse das mãos a ban−

deira sagrada.

Tenho o consolo de haver dado a meu país tudo o que me estava

ao alcance: a desambição, a pureza, a sinceridade, os excessos de

atividade incansável, com que, desde os bancos acadêmicos, o servi,

e o tenho servido até hoje.

Por isso me saí da longa odisséia sem créditos de Ulisses20. Mas,

se o não soube imitar nas artes medrançosas de político fértil em

meios e manhas, em compensação tudo envidei por inculcar ao

19 regímen. – Prefere sempre Rui a forma alatinada à usual regime.

20 Ulisses, herói do poema épico grego Odisséia, de Homero, era extremamente

astucioso e fértil em estratagemas contra os troianos, seus inimigos. A esses atributos

liga−se o adjetivo medrançosas da linha seguinte (que Rui deve ter conhecido no escri−

tor português Antônio Feliciano de Castilho), aqui significando aproximadamente

“engenhosas, produtivas”.

18

povo os costumes da liberdade e à república as leis do bom governo,

que prosperam21 os Estados, moralizam as sociedades, e honram as

nações.

Preguei, demonstrei, honrei a verdade eleitoral, a verdade consti−

tucional, a verdade republicana. Pobres clientes estas, entre nós, sem

armas, nem oiro, nem consideração, mal achavam, em uma nacio−

nalidade esmorecida e indiferente, nos títulos rotos do seu direito,

com que habilitar o mísero advogado a sustentar−lhes com alma,

com dignidade, com sobrançaria, as desprezadas reivindicações. As

três verdades não podiam alcançar melhor sentença no tribunal da

corrupção política do que o Deus vivo no de Pilatos.

Quem por uma causa destas combateu, abraçado com ela, em

vinte e oito anos da sua Via Dolorosa, não se pode ter habituado a

maldizer, senão a perdoar, nem a descrer, senão a esperar. Descrer da

cegueira humana, sim; mas da Providência, fatal nas suas soluções,

bem que (ao parecer) tarda nos seus passos, isso nunca.

Assim que22 a bênção do paraninfo não traz fel. Não lhe

encontrareis no fundo nem rancor, nem azedume, nem despeito. Os

maus só lhe inspiram tristeza e piedade. Só o mal é o que o inflama

em ódio. Porque o ódio ao mal é amor do bem, e a ira contra o mal,

entusiasmo divino. Vede Jesus despejando os vendilhões do templo,

ou Jesus provando a esponja amarga no Gólgota. Não são o mesmo

Cristo, esse ensangüentado Jesus do Calvário e aqueloutro, o Jesus

iroso, o Jesus armado, o Jesus do látego inexorável? Não serão um

só Jesus, o que morre pelos bons, e o que açoita os maus?

O Padre Manuel Bernardes pregava, numa das suas Silvas:

“Bem pode haver ira, sem haver pecado: Irascimini, et nolite

peccare. E às vezes poderá haver pecado, se não houver ira: por−

quanto a paciência, e silêncio, fomenta23 a negligência dos maus, e

21 prosperam: fazem prosperar. – V. também a nota 77.

22 Assim que: assim é que.

23 porquanto a paciência, e silêncio, fomenta a negligência dos maus. – A con−

cordância do verbo no singular justifica−se pelo fato de os dois termos do sujeito

19

tenta a perseverança dos bons. Qui cum causa non irascitur, peccat

(diz um padre); patientia enim irrationabilis vitia seminat,

negligentiam nutrit, et non solum malos, sed etiam bonos invitat ad

malum24 . Nem o irar−se nestes termos é contra a mansidão: porque

esta virtude compreende dois25 atos: um é reprimir a ira, quando é

desordenada; outro, excitá−la, quando convém. A ira se compara ao

cão, que ao ladrão ladra, ao senhor festeja, ao hóspede nem festeja,

nem ladra: e sempre faz o seu ofício. E assim quem se agasta nas

ocasiões, e contra as pessoas, que convém agastar−se, bem pode, com

tudo isso, ser verdadeiramente manso. Qui igitur (disse o Filósofo)

ad quae oportet, et quibus oportet, irascitur, laudatur, esseque is

mansuetus potest.”*26

Nem toda ira, pois, é maldade; porque a ira, se, as mais das ve−

zes, rebenta agressiva e daninha, muitas outras, oportuna e necessá−

ria, constitui o específico da cura. Ora deriva da tentação infernal,

ora de inspiração religiosa. Comumente se acende em sentimentos

desumanos e paixões cruéis; mas não raro flameja do amor santo e

da verdadeira caridade. Quando um braveja contra o bem, que não

entende, ou que o contraria, é ódio iroso, ou ira odienta. Quando

verbera o escândalo, a brutalidade, ou o orgulho, não é agrestia rude,

mas exaltação virtuosa; não é soberba, que explode, mas indigna−

ção27 que ilumina; não é raiva desaçaimada, mas correção fraterna.

(paciência e silêncio) conterem, em conjunto, uma inter−relação de causa e conse−

qüência – ressaltada pela pontuação –, que os alia num todo em que sobressai o

primeiro termo (paciência). É como se se dissesse: a paciência (e conseqüente silêncio)

fomenta a negligência dos maus.

24 “Quem, tendo motivo, não se ira, peca; pois a paciência irracional semeia

vícios, alimenta a negligência e excita ao mal não apenas os maus, senão os bons.”

25 dois. – V. nota 2.

* Luz e Calor, 1ª ed., 1696. Págs. 271−272, § XVIII.

26 “Louva−se, pois, aquele que se ira com o que é oportuno, e com quem é opor−

tuno; esse pode manter−se em mansidão.”

27 indignação que ilumina. – Eis uma das raríssimas passagens em que não se

20

Então, não somente não peca o que se irar, mas pecará, não se irando.

Cólera será; mas cólera da mansuetude, cólera da justiça, cólera que

reflete a de Deus, face também celeste do amor, da misericórdia e da

santidade.

Dela esfuzilam centelhas, em que se abrasa, por vezes, o apósto−

lo, o sacerdote, o pai, o amigo, o orador, o magistrado. Essas faúlhas

da substância divina atravessam o púlpito, a cátedra, a tribuna, o

rostro28, a imprensa, quando se debatem, ante o país, ou o mundo,

as grandes causas humanas, as grandes causas nacionais, as grandes

causas populares, as grandes causas sociais, as grandes causas da

consciência religiosa. Então a palavra se eletriza, brame, lampeja,

atroa, fulmina. Descargas sobre descargas rasgam o ar, incendeiam

o horizonte, cruzam em raios o espaço. É a hora das responsabilida−

des, a hora da conta e do castigo, a hora das apóstrofes, imprecações

e anátemas, quando a voz do homem reboa como o canhão, a arena

dos combates da eloqüência estremece como campo de batalha, e as

siderações da verdade, que estala sobre as cabeças dos culpados,

revolvem o chão, coberto de vítimas e destroços incruentos, com

abalos de terremoto. Ei−la aí a cólera santa! Eis a ira divina!

Quem, senão ela, há de expulsar do templo o renegado, o blasfe−

mo, o profanador, o simoníaco? quem, senão ela, exterminar da ci−

ência o apedeuta, o plagiário, o charlatão? quem, senão ela, banir da

sociedade o imoral, o corruptor, o libertino? quem, senão ela, varrer

dos serviços do Estado o prevaricador, o concussionário e o ladrão

público? quem, senão ela, precipitar do governo o negocismo, a pros−

tituição política, ou a tirania? quem, senão ela, arrancar a defesa da

encontra em Rui a oração adjetiva, mesmo restritiva, separada por vírgula do subs−

tantivo antecedente – cacoete muito característico do Mestre (V. nota 30). Isto se

deve, sem dúvida, à substituição que fez, no manuscrito, riscando o adjetivo virtuosa

e sobrepondo−lhe a oração que ilumina. – A reprodução fac−similar da página 24 do

manuscrito (na pág.7 desta edição) esclarece bem o fato. V. também as notas 30 e 31.

28 rostro: tribuna adornada com proas de navios, onde os oradores romanos

discursavam.

21

pátria à cobardia, à inconfidência, ou à traição? Quem, senão ela,

ela a cólera do celeste inimigo dos vendilhões e dos hipócritas? a

cólera do justo, crucifixo entre ladrões? a cólera do Verbo da verda−

de, negado pelo poder da mentira? a cólera da santidade suprema,

justiçada pela mais sacrílega das opressões?29

Todos os que nos dessedentamos nessa fonte, os que nos sacia−

mos desse pão, os que adoramos esse ideal, nela vamos buscar a

chama incorruptível. É dela que, ao espetáculo ímpio do mal

tripudiante sobre os reveses do bem, rebenta em labaredas a indig−

nação, golfa a cólera em borbotões das fráguas da consciência, e a

palavra sai, rechinando, esbraseando, chispando como o metal can−

dente dos seios da fornalha.

Esse metal nobre, porém, na incandescência da sua ebulição, não

deixa escória. Pode crestar os lábios, que30 atravessa. Poderá infla−

mar por momentos o irritado coração, de onde30 jorra. Mas não o

degenera, não o macula, não o resseca, não o caleja, não o endurece;

e, no fundo são da urna31 onde tumultuam essas procelas, e donde

29 Todo este parágrafo é exemplo vivo dos procedimentos retóricos utilizados

por Rui Barbosa, especialmente no campo da REITERAÇÃO, tendo em vista obter

sobre os ouvintes efeito imediato: a INTERROGAÇÃO RETÓRICA – puramente

afetiva, e da qual não se espera resposta; a ANÁFORA – repetição de termos no

início de cada oração; a GRADAÇÃO ou CLÍMAX – repetição ampliada de termos

de significado cada vez mais intenso; a REITERAÇÃO da idéia contida na palavra

motivadora – ira –, seja por meio de um sinônimo (cólera), seja do pronome substitu−

to (ela); enfim a ANTÍTESE (justo – ladrões, verdade – mentira, santidade suprema

a mais sacrílega das opressões). É de imaginar o impacto de tais recursos – constantes

na obra oratória de Rui – sobre o jovem auditório. – Observe−se ainda o emprego de

minúsculas em seguida aos pontos−de−interrogação que separam as várias frases com−

ponentes dos dois blocos em que se divide o parágrafo. (V. também a nota 12.)

30 lábios, que atravessa; coração, de onde jorra – Na última fase de sua produção

escrita, Rui Barbosa, quase invariavelmente, separa por vírgula do substantivo ante−

cedente o pronome relativo que o segue, se bem que a norma (já então seguida em

geral) seja somente usá−la quando se trate de oração adjetiva explicativa.

31 urna onde tumultuam. – V. nota 27.

22

borbotam essas erupções, não assenta um rancor, uma inimizade,

uma vingança. As reações da luta cessam, e fica, de envolta com o

aborrecimento ao mal, o relevamento dos males padecidos.

Nest’alma32, tantas vezes ferida e traspassada tantas vezes, nem

de agressões, nem de infamações, nem de preterições, nem de ingra−

tidões, nem de perseguições, nem de traições, nem de expatriações

perdura o menor rasto, a menor idéia de revindicta. Deus me é teste−

munha de que tudo tenho perdoado. E, quando lhe digo, na oração

dominical: “Perdoai−nos, Senhor, as nossas dívidas, assim como nós

perdoamos aos nossos devedores”33, julgo não lhe estar mentindo; e

a consciência me atesta que, até onde alcance a imperfeição huma−

na, tenho conseguido, e consigo todos os dias obedecer ao sublime

mandamento. Assim me perdoem, também, os a quem tenho agra−

vado, os com quem houver sido injusto, violento, intolerante, malig−

no, ou descaridoso.

Estou−vos abrindo o livro da minha vida. Se me não quiserdes

aceitar como expressão fiel da realidade esta versão rigorosa de uma

de suas páginas, com que mais me consolo, recebei−a, ao menos,

como ato de fé, ou como conselho de pai a filhos, quando não como

o testamento de uma carreira, que poderá ter discrepado, muitas

vezes, do bem, mas sempre o evangelizou com entusiasmo, o procu−

rou com fervor, e o adorou com sinceridade.

Desde que o tempo começou, lento lento, a me decantar o espíri−

to do sedimento das paixões, com que o verdor dos anos e o amargor

das lutas o enturbavam, entrando eu a considerar com filosofia nas

leis da natureza humana, fui sentindo quanto esta necessita da con−

tradição, como a lima dos sofrimentos a melhora, a que ponto o

acerbo das provações a expurga, a tempera, a nobilita, a regenera.

Então vim a perceber vivamente que imensa dívida cada criatura da

32 Nest’alma. – V. nota 7.

33 Assim era enunciado este trecho do tradicional “Padre−Nosso”, hoje “Pai−

Nosso”(“Perdoai−nos as nossas ofensas, assim como nós perdoamos a quem nos tem

ofendido.”).

23

nossa espécie deve aos seus inimigos e desfortunas. Por mais

desagrestes34 que sejam os contratempos da sorte e as maldades dos

homens, raro nos causam mal tamanho, que nos não façam ainda

maior bem. Ai de nós, se esta purificação gradual, que nos deparam

as vicissitudes cruéis da existência, não encontrasse a colaboração

providencial da fortuna35 adversa e dos nossos desafetos. Ninguém

mete em conta o serviço contínuo, de que lhes está em obrigação.

Diríeis, até, que, mandando−nos amar aos nossos inimigos, em

boa parte nos quis o divino legislador entremostrar o muito, de que

eles nos são credores. A caridade com os que nos malquerem, e os

que nos malfazem, não é, em bem larga escala, senão pago dos bene−

fícios, que, mal a seu grado, mas muito deveras, eles nos granjeiam.

Destarte, não equivocaremos a aparência com a realidade, se,

nos dissabores que malquerentes e malfazentes nos propinam,

discernirmos a quota de lucro, com que eles, não levando em tal o

sentido, quase sempre nos favorecem. Quanto é pela minha parte, o

melhor do que sou, bem assim o melhor do que me acontece,

freqüentemente acaba o tempo convencendo−me de que não me vem

das doçuras da fortuna propícia, ou da verdadeira amizade, senão

sim que o devo, principalmente, às maquinações dos malévolos e às

contradições da sorte madrasta. Que seria, hoje, de mim, se o veto

dos meus adversários, sistemático e pertinaz, me não houvesse pou−

pado aos tremendos riscos dessas alturas, “alturas de Satanás”, como

as de que fala o Apocalipse, em que tantos se têm perdido, mas a que

tantas vezes me tem tentado exalçar o voto dos meus amigos? Ami−

gos e inimigos estão, amiúde, em posições trocadas. Uns nos querem

mal, e fazem−nos bem. Outros nos almejam o bem, e nos trazem o

mal.

Não poucas vezes, pois, razão é lastimar o zelo dos amigos, e

agradecer a malevolência dos opositores. Estes nos salvam, quando

34 desagrestes: muito agrestes. – O prefixo des− é aqui intensivo, e não negativo.

Cf. nota 39.

35 fortuna: sorte, destino.

24

aqueles nos extraviam. De sorte que, no perdoar aos inimigos, mui−

ta vez não vai somente caridade cristã, senão também justiça ordiná−

ria e reconhecimento humano. E, ainda quando, aos olhos do mun−

do, como aos do nosso juízo descaminhado, tenham logrado a nossa

desgraça, bem pode ser que, aos olhos da filosofia, aos da crença e

aos da verdade suprema, não nos hajam contribuído senão para a

felicidade.

Este, senhores, será um saber vulgar, um saber rasteiro,

“um saber só d’experiências feito”.36

Não é o saber da ciência, que se libra acima das nuvens, e alteia o

vôo soberbo, além das regiões siderais, até aos páramos indevassáveis

do infinito. Mas, ainda assim, este saber fácil mereceu a Camões o

ter a sua legenda insculpida em versos imortais; quanto mais a nós

outros, “bichos da terra tão pequenos”37, a ninharia de ocupar diva−

gações, como estas, de um dia, folhas de árvore morta, que, talvez,

não vinguem ao de amanhã.

Da ciência estamos aqui numa catedral. Não cabia em um velho

catecúmeno vir ensinar a religião aos seus bispos e pontífices, nem

aos que agora nela recebem as ordens do seu sacerdócio. E hoje é

féria, ensejo para tréguas ao trabalho ordinário, quase dia santo.

Labutastes a semana toda, o vosso curso de cinco anos, com teorias,

hipóteses e sistemas, com princípios, teses e demonstrações, com leis,

códigos e jurisprudências, com expositores, intérpretes e escolas.

Chegou o momento de vos assentardes, mão por mão38, com os vos−

sos sentimentos, de vos pordes à fala com a vossa consciência, de

praticardes familiarmente com os vossos afetos, esperanças e propó−

sitos.

36 Camões, Os Lusíadas, IV, 94.

37 Cf. o último verso do canto I de Os Lusíadas: “Contra um bicho da terra tão

pequeno.”

38 mão por mão: intimamente, a sós.

25

Eis ao que vem o padrinho, o velho, o abendiçoador, carregado

de anos e tradições, versado nas longas lições do tempo, mestre de

humildade, arrependimento e desconfiança, nulo entre os grandes

da inteligência, grande entre os experimentados na fraqueza huma−

na. Que se feche, pois, alguns momentos o livro da ciência; e folhe−

emos juntos o da experiência. Desaliviemo−nos39 do saber humano,

carga formidável, e voltemo−nos uma hora para este outro, leve,

comezinho, desalinhado, conversável, seguro, sem altitudes, nem

despenhadeiros.

Ninguém, senhores meus, que empreenda uma jornada extraor−

dinária, primeiro que meta o pé na estrada se esquecerá de entrar em

conta com as suas forças, por saber se a levarão ao cabo. Mas, na

grande viagem, na viagem de trânsito deste a outro mundo, não há

“possa, ou não possa”, não há querer, ou não querer. A vida não

tem mais que duas portas: uma de entrar, pelo nascimento; outra de

sair, pela morte. Ninguém, cabendo−lhe a vez, se poderá furtar à

entrada. Ninguém, desde que entrou, em lhe chegando o turno, se

conseguirá evadir à saída. E, de um ao outro extremo, vai o cami−

nho, longo, ou breve, ninguém o sabe, entre cujos termos fatais se

debate o homem, pesaroso de que entrasse, receioso40 da hora em

que saia, cativo de um e outro mistério, que lhe confinam a passa−

gem terrestre.

Não há nada mais trágico do que a fatalidade inexorável deste

destino, cuja rapidez ainda lhe agrava a severidade.

Em tão breve trajeto cada um há de acabar a sua tarefa. Com

que elementos? Com os que herdou, e os que cria. Aqueles são a

parte da natureza. Estes, a do trabalho.

39 Desaliviemo−nos. – O prefixo des− é aqui intensivo: aliviemo−nos totalmente.

Cf. nota 34.

40 Receioso. – Nas primeiras décadas deste século ainda era comum a escrita do

ditongo ei átono em vocábulos como receioso, freiar, passeiando (hoje escritos receo−

so, frear, passeando). Conservamos a escrita com ditongo, pois deve representar a

pronúncia da época.

26

A parte da natureza varia ao infinito. Não há, no universo, duas

coisas41 iguais. Muitas se parecem umas às outras. Mas todas entre

si diversificam. Os ramos de uma só árvore, as folhas da mesma

planta, os traços da polpa de um dedo humano, as gotas do mesmo

fluido, os argueiros do mesmo pó, as raias do espectro de um só raio

solar ou estelar. Tudo assim, desde os astros no céu, até os micróbios

no sangue, desde as nebulosas no espaço, até aos aljôfares do rocio

na relva dos prados.

A regra da igualdade não consiste senão em quinhoar desigual−

mente aos desiguais, na medida em que se desigualam. Nesta desi−

gualdade social, proporcionada à desigualdade natural, é que se acha

a verdadeira lei da igualdade. O mais são desvarios da inveja, do

orgulho, ou da loucura. Tratar com desigualdade a iguais, ou a desi−

guais com igualdade, seria desigualdade flagrante, e não igualdade

real. Os apetites humanos conceberam inverter a norma universal

da criação, pretendendo, não dar a cada um, na razão do que vale,

mas atribuir o mesmo a todos, como se todos se equivalessem.

Esta blasfêmia contra a razão e a fé, contra a civilização e a hu−

manidade, é a filosofia da miséria, proclamada em nome dos direi−

tos do trabalho; e, executada, não faria senão inaugurar, em vez da

supremacia do trabalho, a organização da miséria.

Mas, se a sociedade não pode igualar os que a natureza criou

desiguais, cada um, nos limites da sua energia moral, pode reagir

sobre as desigualdades nativas, pela educação, atividade e perseve−

rança. Tal a missão do trabalho.

Os portentos, de que esta força é capaz, ninguém os calcula. Suas

vitórias na reconstituição da criatura maldotada só se comparam às

da oração.

Oração e trabalho são os recursos mais poderosos na criação

moral do homem. A oração é o íntimo sublimar−se d’alma pelo

contacto com Deus. O trabalho é o inteirar, o desenvolver, o apurar

41 coisas. – V. nota 2.

27

das energias do corpo e do espírito, mediante a ação contínua de

cada um sobre si mesmo e sobre o mundo onde labutamos.

O indivíduo que trabalha, acerca−se continuamente do autor de

todas as coisas, tomando na sua obra uma parte, de que depende

também a dele. O criador começa, e a criatura acaba a criação de si

própria.

Quem quer, pois, que trabalhe, está em oração ao Senhor. Ora−

ção pelos atos, ela emparelha com a oração pelo culto. Nem pode

ser que uma ande verdadeiramente sem a outra. Não é trabalho dig−

no de tal nome o do mau; porque a malícia do trabalhador o conta−

mina. Não é oração aceitável a do ocioso; porque a ociosidade a

dessagra. Mas, quando o trabalho se junta à oração, e a oração com

o trabalho, a segunda criação do homem, a criação do homem pelo

homem, semelha às vezes, em maravilhas, à criação do homem pelo

divino Criador.

Ninguém desanime, pois, de que o berço lhe não fosse generoso,

ninguém se creia malfadado, por lhe minguarem de nascença have−

res e qualidades. Em tudo isso não há surpresas, que se não possam

esperar da tenacidade e santidade no trabalho. Quem não conhece a

história do P.e Suárez, o autor do tratado Das Leis e de Deus Legis−

lador, De Legibus ac Deo Legislatore, monumento jurídico, a que os

trezentos anos de sua idade ainda não gastaram o conceito de honra

das letras castelhanas? De cinqüenta aspirantes, que, em 1564, soli−

citavam, em Salamanca, ingresso à Companhia de Jesus, esse foi o

único rejeitado, por curto de entendimento e revesso ao ensino. Ad−

mitido, todavia, a insistências suas, com a nota de “indiferente”,

embora primasse entre os mais aplicados, tudo lhe eram, no estudo,

espessas trevas. Não avançava um passo. Afinal, por consenso de

todos, passava por invencível a sua incapacidade. Confessou−a, por

fim, ele mesmo, requerendo ao reitor, o célebre P.e Martín Gutiérrez,

que o escusasse da vida escolar, e o entregasse aos misteres corporais

de irmão coadjutor. Gutiérrez animou−o a orar, persistir, e esperar.

De repente se lhe alagou de claridade a inteligência. Mergulhou−se,

então, cada vez mais no estudo; e daí, com estupenda mudança, co−

28

meça a deixar ver o a que era destinada aquela extraordinária cabe−

ça, até esse tempo submersa em densa escuridade.

Já é mestre insigne, já encarna todo o saber da renascença teoló−

gica, em que brilham as letras de Espanha42. Sucessivamente ilustra

as cadeiras de Filosofia, Teologia e Cânones nas mais famosas uni−

versidades européias: em Segóvia, em Valhadolid, em Roma, em

Alcalá, em Salamanca, em Ávila, em Coimbra. Nos seus setenta

anos de vida, professa as Ciências Teológicas durante quarenta e

sete, escreve cerca de duzentos volumes, e morre comparado com

Santo Agostinho e S. Tomás, abaixo de quem houve quem o consi−

derasse “o maior engenho, que tem tido a igreja” *; sendo tal a sua

nomeada, ainda entre os protestantes, que deste jesuíta, como teó−

logo e filósofo, chegou a dizer Grócio que “apenas havia quem o

igualasse”.

Já vedes que ao trabalho nada é impossível. Dele não há extre−

mos, que não sejam de esperar. Com ele nada pode haver, de que

desesperar.

Mas, do século XVI ao século XX, o que as ciências cresceram, é

incomensurável. Entre o currículo da Teologia e Filosofia, no pri−

meiro, e o programa de um curso jurídico, no segundo, a distância é

infinita. Sobre os mestres, os sábios e os estudantes de agora pesam

montanhas e montanhas mais de questões, problemas e estudos que

quantos, há três ou quatro séculos, se abrangiam no saber humano.

O trabalho, pois, vos há de bater à porta dia e noite; e nunca vos

negueis às suas visitas, se quereis honrar vossa vocação, e estais dis−

postos a cavar nos veios de vossa natureza, até dardes com os

tesoiros43, que aí vos haja reservado, com ânimo benigno, a dadivo−

42 de Espanha. – Rui, seguindo os clássicos da língua, dispensa o artigo antes do

nome de países e regiões familiarmente ligados a Portugal, como Espanha, França,

Inglaterra, África. Lembrem−se as suas Cartas de Inglaterra.

* P.e Francisco Suárez: Tratado de las Leyes y de Dios Legislador. Ed. de Madrid,

1918. Tomo I, pág. XXXVII.

43 tesoiros. – V. nota 2.

29

sa Providência. Ouvistes o aldrabar da mão oculta, que vos chama

ao estudo? Abri, abri, sem detença. Nem, por vir muito cedo, lho

leveis a mal, lho44 tenhais à conta de importuna. Quanto mais matu−

tinas essas interrupções do vosso dormir, mais lhas deveis agradecer.

O amanhecer do trabalho há de antecipar−se ao amanhecer do

dia. Não vos fieis muito de quem esperta já sol nascente, ou sol

nado. Curtos se fizeram os dias, para que nós os dobrássemos, ma−

drugando. Experimentai, e vereis quanto vai do deitar tarde ao acor−

dar cedo. Sobre a noite o cérebro pende ao sono. Antemanhã, tende

a despertar.

Não invertais a economia do nosso organismo: não troqueis a

noite pelo dia, dedicando este à cama, e aquela às distrações. O que

se esperdiça para o trabalho com as noitadas inúteis, não se lhe reco−

bra com as manhãs de extemporâneo dormir, ou as tardes de cansa−

do labutar. A ciência, zelosa do escasso tempo que nos deixa a vida,

não dá lugar aos tresnoites libertinos. Nem a cabeça já exausta, ou

estafada nos prazeres, tem onde caiba o inquirir, o revolver, o medi−

tar do estudo.

Os próprios estudiosos desacertam, quando, iludidos por um

hábito de inversão, antepõem o trabalho, que entra pela noite, ao

que precede o dia. A natureza nos está mostrando com exemplos a

verdade. Toda ela, nos viventes, ao anoitecer, inclina para o sono. A

esta lição geral só abrem triste exceção os animais sinistros e os

carniceiros. Mas, quando se avizinha o volver da luz, muito antes

que ela arraie a natureza, e ainda primeiro que alvoreça no

firmamento, já rompeu na terra em cânticos a alvorada, já se or−

questram de harmonias e melodias campos e selvas, já o galo, não o

galo triste do luar dos sertões do nosso Catulo, mas o galo festivo

44 lho tenhais à conta de importuna. – Assim está no manuscrito, pág. 50. O

sentido e a regência exigiriam, porém, a em vez de lho: “Nem, por vir muito cedo [o

aldrabar da mão oculta], lhe leveis isso a mal, nem a [a mão oculta] tenhais à conta de

importuna.”– A discrepância se deve a uma emenda de Rui, substituindo, após o

segundo lho, um verbo, que riscou, por outro.

30

das madrugadas, retine ao longe a estridência dos seus clarins, vi−

brantes de jubilosa alegria.

Ouvi, no poema de Jó, a voz do Senhor, perguntando a seu servo,

onde estava, quando o louvavam as estrelas da manhã: “Ubi eras…

cum me laudarent simul astra matutina?” E que têm mais as estrelas

da manhã, dizia um grande escritor nosso45 , “que têm mais as estre−

las da manhã, que as da tarde, ou as da noite, para fazer Deus mais

caso do louvor de umas que das outras? não é ele o Senhor do tem−

po, que deve ser louvado a todo o tempo, não só da luz, senão tam−

bém das trevas? Assim é: porém as estrelas da manhã têm esta van−

tagem que madrugam, antecipam−se, e despertam aos outros, que se

levantem a servir a Deus. Pois disto é que Deus se honra, e agrada,

em presença de Jó.”*

Tomai exemplo, estudantes e doutores, tomai exemplo das estre−

las da manhã, e gozareis das mesmas vantagens: não só a de

levantardes mais cedo a Deus a oração do trabalho, mas a de

antecederdes aos demais, logrando mais para vós mesmos, e estimu−

lando os outros a que vos rivalizem no ganho bendito.

Há estudar, e estudar. Há trabalhar, e trabalhar. Desde que o

mundo é mundo, se vem dizendo que o homem nasce para o traba−

lho: “Homo nascitur ad laborem.”** Mas o trabalhar é como o se−

mear, onde tudo vai muito das sazões, dos dias e das horas. O cére−

bro, cansado e seco do laborar diurno, não acolhe bem a semente:

não a recebe fresco e de bom grado, como a terra orvalhada. Nem a

colheita acode tão suave às mãos do lavrador, quando o torrão já lhe

não está sorrindo entre o sereno da noite e os alvores do dia.

Assim, todos sabem que para trabalhar nascemos. Mas muitos

somos os que ignoramos certas condições, talvez as mais elementa−

res, do trabalho, ou, pelo menos, mui poucos os que as praticamos.

45 escritor nosso: quer dizer, de nossa língua, como o clássico português Padre

Manuel Bernardes.

* Padre M. Bernardes: Sermões e Práticas, 1.ª ed., de 1762. Parte I, pág. 297.

** Jó, V, 7.

31

Quantos serão os que acreditam que os melhores trabalhadores se−

jam os melhores madrugadores? que os mais estudiosos não sejam

os que oferecem ao estudo os sobejos do dia, mas os que o honram

com as primícias da manhã?

Dirão que tais trivialidades, cediças e corriqueiras, não são para

contempladas46 num discurso acadêmico, nem para escutadas entre

doutores, lentes e sábios. Cada um se avém como entende, e faz o

que pode. Mas eu, nisto aqui, faço ainda o que devo. Porque, vindo

pregar−vos experiência, cumpria que relevasse mais a que mais so−

bressai na minha estirada carreira de estudante.

Estudante sou. Nada mais. Mau sabedor, fraco jurista, mesqui−

nho advogado, pouco mais sei do que saber estudar, saber como se

estuda, e saber que tenho estudado. Nem isso mesmo sei se saberei

bem. Mas, do que tenho logrado saber, o melhor devo às manhãs e

madrugadas. Muitas lendas se têm inventado, por aí, sobre excessos

da minha vida laboriosa. Deram, nos meus progressos intelectuais,

larga parte ao uso em abuso do café e ao estímulo habitual dos pés

mergulhados n’água47 fria. Contos de imaginadores. Refratário sou

ao café. Nunca recorri a ele como a estimulante cerebral. Nem uma

só vez na minha vida busquei num pedilúvio o espantalho do sono.

Ao que devo, sim, o mais dos frutos do meu trabalho, a relativa

exabundância da sua fertilidade, a parte produtiva e durável da sua

safra, é às minhas madrugadas. Menino ainda, assim que entrei ao

46 não são para contempladas: para serem contempladas; para escutadas: para

serem escutadas. Elipse usual do verbo auxiliar ser na linguagem clássica. Cf. Camões,

Os Lusíadas, X, 152:

“Fazei, Senhor, que nunca os admirados

Alemães, Galos, Ítalos e Ingleses

Possam dizer que são pera mandados,

Mais que pera mandar os Portugueses.”

47 n’água. – V. nota 7.

32

colégio48 alvidrei eu mesmo a conveniência desse costume, e daí avante

o observei, sem cessar, toda a vida. Eduquei nele o meu cérebro, a

ponto de espertar exatamente à hora, que comigo mesmo assentara,

ao dormir. Sucedia, muito amiúde, encetar eu a minha solitária ban−

ca de estudo à uma ou às duas da antemanhã. Muitas vezes me man−

dava meu pai volver ao leito; e eu fazia apenas que lhe obedecia,

tornando, logo após, àquelas amadas lucubrações, as de que me lem−

bro com saudade mais deleitosa e entranhável.

Tenho, ainda hoje, convicção de que nessa observância persisten−

te está o segredo feliz, não só das minhas primeiras vitórias no tra−

balho, mas de quantas vantagens alcancei jamais levar aos meus con−

correntes, em todo o andar dos anos, até à velhice. Muito há que já

não subtraio tanto às horas da cama, para acrescentar às do estudo.

Mas o sistema ainda perdura, bem que largamente cerceado nas an−

tigas imoderações. Até agora, nunca o sol deu comigo deitado e,

ainda hoje, um dos meus raros e modestos desvanecimentos é o de

ser grande madrugador, madrugador impenitente.

Mas, senhores, os que madrugam no ler, convém madrugarem

também no pensar. Vulgar é o ler, raro o refletir. O saber não está na

ciência alheia, que se absorve, mas, principalmente, nas idéias pró−

prias, que se geram dos conhecimentos absorvidos, mediante a

transmutação, por que passam, no espírito49 que os assimila. Um

sabedor não é armário de sabedoria armazenada, mas transforma−

dor reflexivo de aquisições digeridas.

Já se vê quanto vai do saber aparente ao saber real. O saber de

aparência crê e ostenta saber tudo. O saber de realidade, quanto

mais real, mais desconfia, assim do que vai aprendendo, como do

que elabora.

Haveis de conhecer, como eu conheço, países, onde quanto me−

nos ciência se apurar, mais sábios florescem. Há, sim, dessas regiões

48 entrei ao colégio. – Regência rara, em lugar da usual entrei para o colégio.

49 no espírito que os assimila. – Outra das raras ocasiões em que a oração adjetiva

restritiva não vem separada por vírgula do seu substantivo. – V. nota 27.

33

por este mundo além. Um homem (nessas terras de promissão) que

nunca se mostrou lido ou sabido em coisa nenhuma, tido e havido é

por corrente e moente50 no que quer que seja; porque assim o acla−

mam as trombetas da política, do elogio mútuo, ou dos corrilhos

pessoais, e o povo subscreve a néscia atoarda. Financeiro, adminis−

trador, estadista, chefe de Estado, ou qualquer outro lugar de ingen−

te situação e assustadoras responsabilidades, é a pedir de boca51 , o

que se diz mão de pronto desempenho52 , fórmula viva a quaisquer

dificuldades, chave de todos os enigmas.

Tenham por averiguado que, onde quer que o colocarem, dará

conta o sujeito das mais árduas empresas e solução aos mais emara−

nhados problemas. Se em nada se aparelhou, está em tudo e para

tudo aparelhado. Ninguém vos saberá informar por quê. Mas todo

o mundo vo−lo dará por líquido e certo. Não aprendeu nada, e sabe

tudo. Ler, não leu. Escrever, não escreveu. Ruminar, não ruminou.

Produzir, não produziu. É um improviso onisciente, o fenômeno de

que poetava Dante:

“In picciol tempo gran dottor si feo”.

*

53

A esses homens−panacéias, a esses empreiteiros de todas as em−

preitadas, a esses aviadores de todas as encomendas, se escancelam

os portões da fama, do poderio, da grandeza, e, não contentes de

lhes aplaudir entre os da terra a nulidade, ainda, quando Deus quer,

a mandam expor à admiração do estrangeiro.

Pelo contrário, os que se tem por notório e incontestável excede−

50 corrente e moente. – A expressão antiga moente e corrente, nesta ordem registrada

nos dicionários, significa “em bom estado de uso”, ou então “muito habitual”. Aqui,

invertendo os termos, Rui quer dizer, sem dúvida, “entendido, capaz, habilitado.”

51 a pedir de boca: conforme se deseje, se peça.

52 mão de pronto desempenho, etc.: indivíduo apto a desempenhar sua tarefa, a

resolver qualquer problema.

* Paradiso, XII, 85.

53 “Em pouco tempo grão doutor se fez.”

34

rem o nível da instrução ordinária, esses para nada servem. Por quê?

Porque “sabem demais”. Sustenta−se aí que a competência reside,

justamente, na incompetência. Vai−se, até, ao incrível de se inculcar

“o medo aos preparados”, de havê−los como cidadãos perigosos, e

ter−se por dogma que um homem, cujos estudos passarem da craveira

vulgar, não poderia ocupar qualquer posto mais grado no governo,

em país de analfabetos. Se o povo é analfabeto, só ignorantes esta−

rão em termos de o governar. Nação de analfabetos, governo de

analfabetos. É o que eles, muita vez às escâncaras, e em letra redon−

da, por aí dizem.

Sócrates, certo dia, numa das suas conversações que o Primeiro

Alcibíades54 nos deixa escutar ainda hoje, dava grande lição de mo−

déstia ao interlocutor, dizendo−lhe, com a costumada lhaneza: “A

pior espécie de ignorância é cuidar uma pessoa saber o que não sabe…

Tal, meu caro Alcibíades, o teu caso. Entraste pela política, antes de

a teres estudado. E não és tu só o que te vejas nessa condição: é esta

mesma a da mor parte dos que se metem nos negócios da república.

Apenas excetuo exíguo número, e pode ser que, unicamente, a

Péricles, teu tutor; porque tem cursado os filósofos.”

Vede agora os que intentais exercitar−vos na ciência das leis, e vir

a ser seus intérpretes, se de tal jeito é que conceberíeis sabê−las, e

executá−las. Desse jeito; isto é: como as entendiam os políticos da

Grécia, pintada pelo mestre de Platão.

Uma vez, que Alcibíades discutia com Péricles, em palestra regis−

trada por Xenofonte, acertou55 de se debater o que seja lei, e quando

exista, ou não exista.

“– Que vem a ser lei?”, indaga Alcibíades.

“– A expressão da vontade do povo”, responde Péricles.

“– Mas que é o que determina esse povo? O bem ou o mal?”

replica−lhe o sobrinho.

54 Nome de um diálogo de Platão, por intermédio de quem, sobretudo, nos fo−

ram transmitidos os ensinamentos de Sócrates.

55 acertou: aconteceu.

35

“– Certo que o bem, mancebo.”

“– Mas, sendo uma oligarquia quem mande, isto é, um dimi−

nuto número de homens, serão, ainda assim, respeitáveis as leis?”

“– Sem dúvida.”

“– Mas, se a disposição vier de um tirano? Se ocorrer violên−

cia, ou ilegalidade? Se o poderoso coagir o fraco? Cumprirá, toda−

via, obedecer?”

Péricles hesita; mas acaba admitindo:

“– Creio que sim.”

“– Mas então”, insiste Alcibíades, “o tirano, que constrange

os cidadãos a lhe acatarem os caprichos, não será, esse sim, o inimi−

go das leis?”

“– Sim; vejo agora que errei em chamar leis às ordens de um

tirano, costumado a mandar, sem persuadir.”

“– Mas, quando um diminuto número de cidadãos impõe seus

arbítrios à multidão, daremos, ou não, a isso o nome de violência?”

“– Parece−me a mim”, concede Péricles, cada vez mais vaci−

lante, “que, em caso tal, é de violência que se trata, não de lei.”

Admitido isso, já Alcibíades triunfa:

“– Logo, quando a multidão, governando, obrigar os ricos,

sem consenso destes, não será, também, violência, e não lei?”

Péricles não acha que responder; e a própria razão não o acharia.

Não é lei a lei, senão quando assenta no consentimento da maioria,

já que, exigido o de todos, desiderandum56 irrealizável, não haveria

meio jamais de se chegar a uma lei.

Ora, senhores bacharelandos, pesai bem que vos ides consagrar à

lei, num país onde a lei absolutamente não exprime o consentimento

da maioria, onde são as minorias, as oligarquias mais acanhadas,

mais impopulares e menos respeitáveis, as que põem, e dispõem, as

que mandam, e desmandam em tudo; a saber: num país, onde, ver−

56 desiderandum. – Preferindo esta forma latina à usual desideratum (já aportuguesada

em desiderato), terá Rui desejado emprestar ao termo o caráter de necessidade, contido

no sufixo −nd−. Assim, desiderandum seria “o idealmente desejável”.

36

dadeiramente, não há lei, não o há, moral, política ou juridicamente

falando.

Considerai, pois, nas dificuldades, em que se vão enleiar57 os que

professam a missão de sustentáculos e auxiliares da lei, seus mestres

e executores.

É verdade que a execução corrige, ou atenua, muitas vezes, a

legislação de má nota. Mas, no Brasil, a lei se deslegitima, anula e

torna inexistente, não só pela bastardia da origem, senão ainda pe−

los horrores da aplicação.

Ora, dizia S. Paulo que boa é a lei, onde se executa legitimamen−

te. “Bona est lex, si quis ea legitime utatur.”* Quereria dizer: Boa é

a lei, quando executada com retidão. Isto é: boa será, em havendo

no executor a virtude, que no legislador não havia. Porque só a

moderação, a inteireza e a eqüidade, no aplicar das más leis, as po−

deriam, em certa medida, escoimar da impureza, dureza e maldade,

que encerrarem. Ou, mais lisa e claramente, se bem o entendo, pre−

tenderia significar o apóstolo das gentes que mais vale a lei má, quan−

do inexecutada, ou mal executada (para o bem), que a boa lei, sofis−

mada e não observada (contra ele).

Que extraordinário, que imensurável, que, por assim dizer, estu−

pendo e sobre−humano, logo, não será, em tais condições, o papel da

justiça! Maior que o da própria legislação. Porque, se dignos são os

juízes, como parte suprema, que constituem, no executar das leis –

em sendo justas, lhes manterão eles a sua justiça, e, injustas, lhes

poderão moderar, se não, até, no seu tanto, corrigir a injustiça.

De nada aproveitam leis, bem se sabe, não existindo quem as

ampare contra os abusos; e o amparo sobre todos essencial é o de

uma justiça tão alta no seu poder, quanto na sua missão. “Aí temos

as leis”, dizia o Florentino. “Mas quem lhes há de ter mão?58 Nin−

guém.”

57 enleiar – V. nota 40.

* S. Paulo: I Tim. I, 8.

58 Quem lhes há de ter mão?: Quem garantirá o seu cumprimento?

37

Le leggi son, ma chi pon mano ad esse?

Nullo”*

Entre nós não seria lícito responder assim tão em absoluto à in−

terrogação do poeta. Na Constituição brasileira, a mão que ele não

via na sua república e em sua época, a mão sustentadora das leis, aí

a temos, hoje, criada, e tão grande, que nada lhe iguala a majestade,

nada lhe rivaliza o poder. Entre as leis, aqui, entre as leis ordinárias

e a lei das leis, é a justiça quem decide, fulminando aquelas, quando

com esta colidirem.

Soberania tamanha só nas federações de molde norte−americano

cabe ao poder judiciário, subordinado aos outros poderes nas de−

mais formas de governo, mas, nesta, superior a todos.

Dessas democracias, pois, o eixo é a justiça, eixo não abstrato,

não supositício, não meramente moral, mas de uma realidade pro−

funda, e tão seriamente implantado no mecanismo do regímen, tão

praticamente embebido através de todas as suas peças, que, falsean−

do ele ao seu mister, todo o sistema cairá em paralisia, desordem e

subversão. Os poderes constitucionais entrarão em conflitos insolú−

veis, as franquias constitucionais ruirão por terra, e da organização

constitucional, do seu caráter, das suas funções, das suas garantias

apenas restarão destroços.

Eis o de que nos há de preservar a justiça brasileira, se a deixa−

rem sobreviver, ainda que agredida, oscilante e malsegura, aos ou−

tros elementos constitutivos da república, no meio das ruínas, em

que mal se conservam ligeiros traços da sua verdade.

Ora, senhores, esse poder eminencialmente necessário, vital e sal−

vador tem os dois braços, nos quais agüenta a lei, em duas institui−

ções: a magistratura e a advocacia, tão velhas como a sociedade huma−

na, mas elevadas ao cem−dobro, na vida constitucional do Brasil,

pela estupenda importância, que o novo regímen veio dar à justiça.

Meus amigos, é para colaborardes em dar existência a essas duas

instituições que hoje saís daqui habilitados. Magistrados ou advoga−

* Dante: Purgatório, XVI, 97−98.

38

dos sereis. São duas carreiras quase sagradas, inseparáveis uma da

outra, e, tanto uma como a outra, imensas nas dificuldades, respon−

sabilidades e utilidades.

Se cada um de vós meter bem a mão na consciência, certo que

tremerá da perspectiva. O tremer próprio é dos que se defrontam

com as grandes vocações, e são talhados para as desempenhar. O

tremer, mas não o descorçoar. O tremer, mas não o renunciar. O

tremer, com o ousar. O tremer, com o empreender. O tremer, com o

confiar. Confiai, senhores. Ousai. Reagi. E haveis de ser bem−sucedi−

dos. Deus, pátria e trabalho. Metei no regaço essas três fés, esses três

amores, esses três signos santos. E segui, com o coração puro. Não

hajais medo a que a sorte vos ludibrie. Mais pode59 que os seus aza−

res a constância, a coragem e a virtude.

Idealismo? Não: experiência da vida. Não há forças, que mais a

senhoreiem, do que essas. Experimentai−o, como eu o tenho experi−

mentado. Poderá ser que resigneis certas situações, como eu as te−

nho resignado. Mas meramente para variar de posto, e, em vos sen−

tindo incapazes de uns, buscar outros, onde vos venha ao encontro o

dever, que a Providência vos haja reservado.

Encarai, jovens colegas meus, nessas60 duas estradas, que se vos

patenteiam. Tomai a que vos indicarem vossos pressentimentos, gos−

tos e explorações, no campo dessas nobres disciplinas, com que lida

a ciência das leis e a distribuição da justiça. Abraçai a que vos sentirdes

indicada pelo conhecimento de vós mesmos. Mas não primeiro que

hajais buscado na experiência de outrem um pouco da que vos é

mister, e que ainda não tendes, para eleger a melhor derrota61, entre

as duas que se oferecem à carta de idoneidade, hoje obtida.

59 Mais pode … a constância, a coragem e a virtude. – Concordância do verbo

anteposto (pode) com o primeiro dos termos (constância) do sujeito composto, con−

siderados, no seu conjunto, como um todo.

60 Encarai … nessas duas estradas. – Regência incomum do verbo encarar, mais

habitualmente transitivo direto.

61 derrota: rota.

39

Pelo que me toca, escassamente avalio até onde, nisso, vos pode−

ria eu ser útil. Muito vi em cinqüenta anos. Mas o que constitui a

experiência, consiste menos no ver, que no saber observar. Observar

com clareza, com desinteresse, com seleção. Observar, deduzindo,

induzindo, e generalizando, com pausa, com critério, com desconfi−

ança. Observar, apurando, contrasteando, e guardando.

Que espécie de observador seja eu, não vo−lo poderia dizer. Mas,

seguro, ou não, no averiguar e discernir – de uma qualidade, ao

menos, me posso abonar a mim mesmo: a de exato e consciencioso

no expender e narrar.

Como me dilataria, porém, numa ou noutra coisa, quando tão

longamente, aqui, já me tenho excedido em abusar de vós e de mim

mesmo?

Não recontarei, pois, senhores, a minha experiência, e muito

menos tentarei explaná−la. Cingir−me−ei, estritamente, a falar−vos

como falaria a mim próprio, se vós estivésseis em mim, sabendo o

que tenho experimentado, e eu me achasse em vós, tendo que resol−

ver essa escolha.

Todo pai é conselheiro natural. Todos os pais aconselham, se

bem que nem todos possam jurar pelo valor dos seus conselhos. Os

meus serão os a que me julgo obrigado, na situação em que momen−

taneamente estou, pelo vosso arbítrio, de pai espiritual dos meus

afilhados em Letras, nesta solenidade.

É à magistratura que vos ides votar?

Elegeis, então, a mais eminente das profissões, a que um homem

se pode entregar neste mundo. Essa elevação me impressiona seria−

mente; de modo que não sei se a comoção me não atalhará o juízo,

ou tolherá o discurso. Mas não se dirá que, em boa vontade, fiquei

aquém dos meus deveres.

Serão, talvez, meras vulgaridades, tão singelas, quão sabidas, mas

onde o senso comum, a moral e o direito, associando−se à experiên−

cia, lhe62 nobilitam os ditames. Vulgaridades, que qualquer outro

62 lhe está por lhes (= vulgaridades). É emprego arcaizante, caído em desuso após o séc. XVII.

40

orador se avantajaria em esmaltar de melhor linguagem, mas que,

na ocasião, a mim tocam, e no meu ensoado vernáculo hão de ser

ditas. Baste, porém, que se digam com isenção, com firmeza, com

lealdade; e assim hão de ser ditas, hoje, desta nobre tribuna.

Moços, se vos ides medir com o direito e o crime na cadeira de

juízes, começai, esquadrinhando as exigências aparentemente me−

nos altas dos vossos cargos, e proponde−vos caprichar nelas com

dobrado rigor; porque, para sermos fiéis no muito, o devemos ser no

pouco. “Qui fidelis est in minimo, et in majori fidelis est; et qui in

modico iniquus est, et in majori iniquus est.”*63

Ponho exemplo, senhores. Nada se leva em menos conta, na ju−

dicatura, a uma boa fé de ofício que o vezo de tardança nos despa−

chos e sentenças. Os códigos se cansam debalde em o punir. Mas a

geral habitualidade e a conivência geral o entretêm, inocentam e

universalizam. Destarte se incrementa e desmanda ele em propor−

ções incalculáveis, chegando as causas a contar a idade por lustros,

ou décadas, em vez de anos.

Mas justiça atrasada não é justiça, senão injustiça qualificada e

manifesta. Porque a dilação ilegal nas mãos do julgador contraria o

direito escrito das partes, e, assim, as lesa no patrimônio, honra e

liberdade. Os juízes tardinheiros são culpados, que a lassidão co−

mum vai tolerando. Mas sua culpa tresdobra com a terrível agra−

vante de que o lesado não tem meio de reagir contra o delinqüente

poderoso, em cujas mãos jaz a sorte do litígio pendente.

Não sejais, pois, desses magistrados, nas mãos de quem os autos

penam como as almas do purgatório, ou arrastam sonos esquecidos

como as preguiças do mato.

Não vos pareçais com esses outros juízes, que, com tabuleta de

escrupulosos, imaginam em risco a sua boa fama, se não evitarem o

* Lucas, XVI, 10.

63 “Quem é fiel nas coisas mínimas também o é nas maiores; e quem é injusto nas

coisas médias também o é nas maiores.”

41

contacto dos pleiteantes, recebendo−os com má sombra64, em lugar

de os ouvir a todos com desprevenção, doçura e serenidade.

Não imiteis os que, em se lhes oferecendo o mais leve pretexto, a

si mesmos põem suspeições rebuscadas, para esquivar responsabili−

dades, que seria do seu dever arrostar sem quebra de ânimo ou de

confiança no prestígio dos seus cargos.

Não sigais os que argumentam com o grave das acusações, para

se armarem de suspeita e execração contra os acusados; como se,

pelo contrário, quanto mais odiosa a acusação, não houvesse o juiz

de se precaver mais contra os acusadores, e menos perder de vista a

presunção de inocência, comum a todos os réus, enquanto não liqui−

dada a prova e reconhecido o delito.

Não acompanheis os que, no pretório, ou no júri, se convertem

de julgadores em verdugos, torturando o réu com severidades ino−

portunas, descabidas, ou indecentes; como se todos os acusados não

tivessem direito à proteção dos seus juízes, e a lei processual, em

todo o mundo civilizado, não houvesse por sagrado o homem, sobre

quem recai acusação ainda inverificada.

Não estejais com os que agravam o rigor das leis, para se acredi−

tar com o nome de austeros e ilibados. Porque não há nada menos

nobre e aplausível que agenciar uma reputação malignamente obti−

da em prejuízo da verdadeira inteligência dos textos legais.

Não julgueis por considerações de pessoas, ou pelas do valor das

quantias litigadas, negando as somas, que se pleiteiam, em razão da

sua grandeza, ou escolhendo, entre as partes na lide, segundo a situ−

ação social delas, seu poderio, opulência e conspicuidade. Porque

quanto mais armados estão de tais armas os poderosos, mais incli−

nados é de receiar65 que sejam à extorsão contra os menos ajudados

da fortuna66; e, por outro lado, quanto maiores são os valores de−

64 com má sombra: de má catadura.

65 receiar. – V. nota 40.

66 fortuna. – V. nota 35.

42

mandados e maior, portanto, a lesão argüida, mais grave iniqüidade

será negar a reparação, que se demanda.

Não vos mistureis com os togados, que contraíram a doença de

achar sempre razão ao Estado, ao Governo, à Fazenda; por onde os

condecora o povo com o título de “fazendeiros”. Essa presunção de

terem, de ordinário, razão contra o resto do mundo, nenhuma lei a

reconhece à Fazenda, ao Governo, ou ao Estado.

Antes, se admissível fosse aí qualquer presunção, havia de ser em

sentido contrário; pois essas entidades são as mais irresponsáveis, as

que mais abundam em meios de corromper, as que exercem as perse−

guições, administrativas, políticas e policiais, as que, demitindo fun−

cionários indemissíveis, rasgando contratos solenes, consumando

lesões de toda a ordem (por não serem os perpetradores de tais aten−

tados os que os pagam), acumulam, continuamente, sobre o Tesoiro

público terríveis responsabilidades.

No Brasil, durante o Império, os liberais tinham por artigo do

seu programa cercear os privilégios, já espantosos, da Fazenda Na−

cional. Pasmoso é que eles67, sob a República, se cem−dobrem ainda,

conculcando−se, até, a Constituição, em pontos de alto melindre,

para assegurar ao Fisco esta situação monstruosa, e que ainda haja

quem, sobre todas essas conquistas, lhe68 queira granjear a de um

lugar de predileções e vantagens na consciência judiciária, no foro

íntimo de cada magistrado.

Magistrados futuros, não vos deixeis contagiar de contágio69 tão

maligno. Não negueis jamais ao Erário, à Administração, à União

os seus direitos. São tão invioláveis, como quaisquer outros. Mas o

direito dos mais miseráveis dos homens, o direito do mendigo, do

escravo, do criminoso, não é menos sagrado, perante a justiça, que o

do mais alto dos poderes. Antes, com os mais miseráveis é que a

justiça deve ser mais atenta, e redobrar de escrúpulo; porque são os

67 eles: os privilégios.

68 lhe: ao Fisco, à Fazenda.

69 contagiar de contágio: repetição enfática.

43

mais maldefendidos, os que suscitam menos interesse, e os contra

cujo direito conspiram a inferioridade na condição com a míngua

nos recursos.

Preservai, juízes de amanhã, preservai vossas almas juvenis des−

ses baixos e abomináveis sofismas. A ninguém importa mais do que

à magistratura fugir do medo, esquivar humilhações, e não conhecer

cobardia. Todo o70 bom magistrado tem muito de heróico em si

mesmo, na pureza imaculada e na plácida rigidez, que a nada se

dobre, e de nada se tema, senão da outra justiça, assente, cá embai−

xo, na consciência das nações, e culminante, lá em cima, no juízo

divino.

Não tergiverseis com as vossas responsabilidades, por mais

atribulações que vos imponham, e mais perigos a que vos exponham.

Nem receieis71 soberanias da terra: nem a do povo, nem a do poder.

O povo é uma torrente, que rara vez se não deixa conter pelas ações

magnânimas. A intrepidez do juiz, como a bravura do soldado, o

arrebatam e fascinam. Os governos investem contra a justiça, pro−

vocam e desrespeitam a tribunais; mas, por mais que lhes72 espu−

mem contra as sentenças, quando justas, não terão, por muito tem−

po, a cabeça erguida em ameaça ou desobediência diante dos magis−

trados, que os enfrentem com dignidade e firmeza.

Os presidentes de certas repúblicas são, às vezes, mais intoleran−

tes com os magistrados, quando lhes resistem, como devem, do que

os antigos monarcas absolutos. Mas, se os chefes das democracias

de tal jaez se esquecem do seu lugar, até o extremo de se haverem,

quando lhes pica o orgulho, com os juízes vitalícios e inamovíveis

de hoje, como se haveriam com os ouvidores e desembargadores

del−Rei Nosso Senhor, frágeis instrumentos nas mãos de déspotas

70 Todo o bom magistrado: qualquer bom magistrado. – Hoje em dia procura−se

distinguir todo o (= “inteiro”) de todo (= “qualquer”), o que não faziam os clássicos,

que Rui gostava de tomar por modelo.

71 receieis. – V. nota 40.

72 lhes espumem contra as sentenças: espumem contra as suas sentenças.

44

coroados – cumpre aos amesquinhados pela jactância dessas rebel−

dias ter em mente que, instituindo−os em guardas da Constituição

contra os legisladores e da lei contra os governos, esses pactos de

liberdade não os revestiram de prerrogativas ultramajestáticas, se−

não para que a sua autoridade não torça às exigências de nenhuma

potestade humana.

Os tiranos e bárbaros antigos tinham, por vezes, mais compreen−

são real da justiça que os civilizados e democratas de hoje. Haja

vista a história, que nos conta um pregador do século XVII.

“A todo o que faz pessoa de juiz, ou ministro”, dizia o orador

sacro, “manda Deus que não considere na parte a razão de príncipe

poderoso, ou de pobre desvalido, senão só a razão do seu próxi−

mo … * Bem praticou esta virtude Canuto, rei dos Vândalos, que,

mandando justiçar uma quadrilha de salteadores, e pondo um deles

embargos de que era parente del−Rei, respondeu: Se provar ser nos−

so parente, razão é que lhe façam a forca mais alta.”**

Bom é que os bárbaros tivessem deixado lições tão inesperadas

às nossas democracias. Bem poderia ser que, barbarizando−se com

esses modelos, antepusessem elas, enfim, a justiça ao parentesco, e

nos livrassem da peste das parentelas, em matérias de governo.

Como vedes, senhores, para me não chamarem a mim revolucio−

nário, ando a catar minha literatura de hoje nos livros religiosos.

Outro ponto dos maiores na educação do magistrado: corar me−

nos de ter errado que de se não emendar. Melhor será que a sentença

não erre. Mas, se cair em erro, o peior73 é que se não corrija. E, se o

próprio autor do erro o remediar, tanto melhor; porque tanto mais

cresce, com a confissão, em crédito de justo, o magistrado, e tanto

mais se soleniza a reparação dada ao ofendido.

Muitas vezes, ainda, teria eu de vos dizer: Não façais, não

* Levítico, XIX, 15.

** P.e M. Bernardes: Sermões, Parte I, págs. 263−4.

73 peior. – Assim está no manuscrito autógrafo.

45

façais. Mas já é tempo de cassar74 as velas ao discurso. Pouco

agora vos direi.

Não anteponhais o draconianismo à eqüidade. Dados a tão cruel

mania, ganharíeis, com razão, conceito de maus, e não de retos.

Não cultiveis sistemas, extravagâncias e singularidades. Por esse

meio lucraríeis a néscia reputação de originais; mas nunca a de sá−

bios, doutos, ou conscienciosos.

Não militeis em partidos, dando à política o que deveis à impar−

cialidade. Dessa maneira venderíeis as almas e famas ao demônio da

ambição, da intriga e da servidão às paixões mais detestáveis.

Não cortejeis a popularidade. Não transijais com as conveniên−

cias. Não tenhais negócios em secretarias. Não delibereis por conse−

lheiros, ou assessores. Não deis votos de solidariedade com outros,

quem quer que sejam. Fazendo aos colegas toda a honra, que lhes

deverdes, prestai−lhes o crédito, a que sua dignidade houver direito;

mas não tanto que delibereis só de os ouvir, em matéria onde a con−

fiança não substitua a inspeção direta. Não prescindais, em suma,

do conhecimento próprio, sempre que a prova terminante vos esteja

ao alcance da vista, e se ofereça à verificação imediata do tribunal.

Por derradeiro, amigos de minha alma, por derradeiro, a última,

a melhor lição da minha experiência. De quanto no mundo tenho

visto, o resumo se abrange nestas cinco75 palavras:

Não há justiça, onde não haja Deus.

Quereríeis que vo−lo demonstrasse? Mas seria perder tem−

po, se já não encontrastes a demonstração no espetáculo atual

da terra, na catástrofe da humanidade. O gênero humano

afundiu−se na matéria, e no oceano violento da matéria flutu−

74 Cassar é como está no manuscrito, ou seja, “recolher”(as velas). Curiosamen−

te, o que muitos dicionários, antigos e modernos, registram é a expressão “caçar as

velas”, significando “içar as escotas de uma vela”(para que esta apresente toda a sua

superfície ao vento), acelerando−se a marcha do barco; o sentido, portanto, é o opos−

to. À lição desses dicionários se deve o engano das edições anteriores.

75 cinco palavras: Não há justiça, onde não haja Deus. – A redação primitiva –

46

am, hoje, os destroços da civilização meio destruída. Esse fatal

excídio está clamando por Deus. Quando ele tornar a nós, as

nações abandonarão a guerra, e a paz, então, assomará entre

elas, a paz das leis e da justiça, que o mundo ainda não tem,

porque ainda não crê.

À justiça humana cabe, nessa regeneração, papel essencial.

Assim o saiba ela honrar. Trabalhai por isso os que abraçardes

essa carreira, com a influência da altíssima dignidade, que do

seu exercício recebereis.

Dela vos falei, da sua grandeza e dos seus deveres, com a

incompetência de quem não a tem exercido. Não tive a honra

de ser magistrado. Advogado sou, há cinqüenta anos, e, já ago−

ra, morrerei advogado.

É, entretanto, da advocacia no Brasil, da minha profissão,

do que nela, em experiência, acumulei, praticando−a, que me

não será dado agora tratar. A extensão já demasiadíssima deste

colóquio em desalinho não me consentiria acréscimo tamanho.

Mas que perdereis, com tal omissão? Nada.

Na missão do advogado também se desenvolve uma espécie

de magistratura. As duas se entrelaçam, diversas nas funções,

mas idênticas no objeto e na resultante: a justiça. Com o advo−

gado, justiça militante. Justiça imperante, no magistrado.

Legalidade e liberdade são as tábuas da vocação do advoga−

do. Nelas se encerra, para ele, a síntese de todos os mandamen−

tos. Não desertar a justiça, nem cortejá−la. Não lhe faltar com

a fidelidade, nem lhe recusar o conselho. Não transfugir da le−

galidade para a violência, nem trocar a ordem pela anarquia.

Não antepor os poderosos aos desvalidos, nem recusar patrocí−

nio a estes contra aqueles. Não servir sem independência à jus−

tiça, nem quebrar da verdade76 ante o poder. Não colaborar

Não há justiça sem Deus – continha realmente cinco palavras. Alterando−a depois,

esqueceu−se Rui de que a nova frase possui mais duas palavras.

76 quebrar da verdade. – Emprego incomum do verbo quebrar, no sentido de

47

em perseguições ou atentados, nem pleitear pela iniqüidade ou

imoralidade. Não se subtrair à defesa das causas impopulares, nem

à das perigosas, quando justas. Onde for apurável um grão, que

seja, de verdadeiro direito, não regatear ao atribulado o consolo

do amparo judicial. Não proceder, nas consultas, senão com im−

parcialidade real do juiz nas sentenças. Não fazer da banca balcão,

ou da ciência mercatura. Não ser baixo com os grandes, nem arro−

gante com os miseráveis. Servir aos opulentos com altivez e aos

indigentes com caridade. Amar a pátria, estremecer o próximo,

guardar fé em Deus, na verdade e no bem.

Senhores, devo acabar. Quando, há cinqüenta anos, saía eu da−

qui, na velha Paulicéia, solitária e brumosa, como hoje saís da trans−

figurada metrópole do máximo Estado brasileiro, bem outros eram

este país e todo o mundo ocidental.

O Brasil acabava de varrer do seu território a invasão paraguaia,

e, na América do Norte, poucos anos antes, a guerra civil limpara

da grande república o cativeiro negro, cuja agonia esteve a pique

de a soçobrar77 despedaçada. Eram dois prenúncios de uma alvo−

rada, que doirava os cimos do mundo cristão, anunciando futuras

vitórias da liberdade.

Mas, ao mesmo tempo, a invasão germânica alagava terras de

França, deixando−a violada, traspassada no coração e cruelmente

mutilada, aos olhos secos e indiferentes das outras potências e mais

nações européias, grandes, ou pequenas.

Ninguém percebeu que se estavam semeando o cativeiro e a

subversão do mundo. Daí a menos de cinqüenta anos, aquela atroz

exacerbação do egoísmo político envolvia culpados e inocentes

numa série de convulsões, tal, que acreditaríeis haver−se despejado

o inferno entre as nações da terra, dando ao inaudito fenômeno

humano proporções quase capazes de representar, na sua espanto−

sa imensidade, um cataclismo cósmico. Parecia estar−se desman−

“desviar−se de”, “infringir”.

77 soçobrar: fazer soçobrar. – V. também a nota 21.

48

chando e aniquilando o mundo. Mas era a eterna justiça que se

mostrava. Era o velho continente que principiava a expiar a velha

política, desalmada, mercantil e cínica, dos Napoleões, Metternichs

e Bismarcks, num ciclone de abominações inenarráveis, que bem

depressa abrangeria, como abrangeu, na zona das suas tremendas

comoções, os outros continentes, e deixaria revolvido o orbe intei−

ro em tormentas catastróficas, só Deus sabe por quantas gerações

além dos nossos dias.

O Briareu78 do inexorável mercantilismo que explorava a hu−

manidade, o colosso do egoísmo universal, que, durante um sécu−

lo, assistira impassível à entronização dos cálculos dos governos

sobre os direitos dos povos, o reinado ímpio da ambição e da força

rolava, e se desfazia, num desmoronamento pavoroso, levando por

aí a rojo impérios e dinastias, reis, domínios, constituições e trata−

dos. Mas a medonha intervenção dos poderes tenebrosos do nosso

destino mal estava começada. Ninguém poderia conjecturar ainda

como e quando acabará.

Neste canto da terra, o Brasil “da hegemonia sul−americana”,

entreluzida com a guerra do Paraguai, não cultivava tais veleida−

des, ainda bem que, hoje, de todo em todo extintas. Mas encetara

uma era de aspirações jurídicas e revoluções incruentas. Em 1888

aboliu a propriedade servil. Em 1889 baniu a coroa, e organizou a

república. Em 1907 entrou, pela porta de Haia, ao concerto das

nações. Em 1917 alistou−se na aliança da civilização, para empe−

nhar a sua responsabilidade e as suas forças navais na guerra das

guerras, em socorro do direito das gentes, cujo código ajudara a

organizar na Segunda Conferência da Paz.

Mas, de súbito, agora, um movimento desvairado parece estar−

nos levando, empuxados de uma corrente submarina, a um recuo

inexplicável. Diríeis que o Brasil de 1921 tendesse, hoje, a repudiar

o Brasil de 1917. Por quê? Porque a nossa política nos descurou

78 Briareu: gigante da mitologia greco−romana, provido de 50 cabeças e

100 braços.

49

dos interesses, e, ante isso, delirando em acesso de frívolo despeito,

iríamos desmentir a excelsa tradição, tão gloriosa, quão inteligente

e fecunda?

Não: senhores, não seria possível. Na resolução de 1917 o Bra−

sil ascendeu à elevação mais alta de toda a nossa história. Não

descerá.

Amigos meus, não. Compromissos daquela natureza, daquele

alcance, daquela dignidade não se revogam. Não convertamos uma

questão de futuro em questão de relance. Não transformemos uma

questão de previdência em questão de cobiça. Não reduzamos uma

imensa questão de princípios a vil questão de interesses. Não de−

mos de barato79 a essência eterna da justiça por uma rasteira desa−

vença de mercadores. Não barganhemos o nosso porvir a troco de

um mesquinho prato de lentilhas. Não arrastemos o Brasil ao es−

cândalo de se dar em espetáculo à terra toda como a mais fútil das

nações, nação que, à distância de quatro anos, se desdissesse de um

dos mais memoráveis atos de sua vida, trocasse de idéias, variasse

de afeições, mudasse de caráter, e se renegasse a si mesma.

Ó, senhores, não, não e não! Paladinos, ainda ontem, do direito

e da liberdade, não vamos agora mostrar os punhos contraídos aos

irmãos, com que comungávamos, há pouco, nessa verdadeira cru−

zada. Não percamos, assim, o equilíbrio da dignidade, por amor

de uma pendência de estreito caráter comercial, ainda mal liquida−

da, sobre a qual as explicações dadas à nação pelos seus agentes,

até esta data, são inconsistentes e furta−cores. Não culpemos o es−

trangeiro das nossas decepções políticas no exterior, antes de ave−

riguarmos se os culpados não se achariam aqui mesmo, entre os a

quem se depara, nestas cegas agitações de ódio a outros povos, a

diversão80 mais oportuna dos nossos erros e misérias intestinas.

O Brasil, em 1917, plantou a sua bandeira entre as da civiliza−

79 Não demos de barato: Não troquemos por preço vil.

80 diversão: mudança de direção para uma e outra parte; desvio, diversionismo. É

o sentido etimológoco da palavra.

50

ção nos mares da Europa. Daí não se retrocede facilmente, sem que−

bra da seriedade e do decoro81, senão dos próprios interesses. Mais

cuidado tivéssemos, em tempo, com os nossos, nos conselhos da

paz, se neles quiséssemos brilhar melhor do que brilhamos nos atos

da guerra, e acabar sem contratempos ou dissabores.

Agora, o que a política e a honra nos indicam, é outra coisa. Não

busquemos o caminho de volta à situação colonial. Guardemo−nos

das proteções internacionais. Acautelemo−nos das invasões econô−

micas. Vigiemo−nos das potências absorventes e das raças

expansionistas. Não nos temamos tanto dos grandes impérios já sa−

ciados, quanto dos ansiosos por se fazerem tais à custa dos povos

indefesos e malgovernados. Tenhamos sentido nos ventos, que so−

pram de certos quadrantes do céu. O Brasil é a mais cobiçável das

presas; e, oferecida, como está, incauta, ingênua, inerme, a todas as

ambições, tem, de sobejo, com que fartar duas ou três das mais for−

midáveis.

Mas o que lhe importa é que dê começo a governar−se a si mes−

mo; porquanto nenhum dos árbitros da paz e da guerra leva em

conta uma nacionalidade adormecida e anemizada na tutela perpé−

tua de governos, que não escolhe. Um povo dependente no seu pró−

prio território e nele mesmo sujeito ao domínio de senhores não

pode almejar seriamente, nem seriamente manter a sua independên−

cia para com o estrangeiro.

Eia, senhores! Mocidade viril! Inteligência brasileira! Nobre na−

ção explorada! Brasil de ontem e amanhã! Dai−nos o de hoje, que

nos falta.

Mãos à obra da reivindicação de nossa perdida autonomia; mãos

à obra da nossa reconstituição interior; mãos à obra de reconciliar−

mos a vida nacional com as instituições nacionais; mãos à obra de

substituir pela verdade o simulacro político da nossa existência en−

tre as nações. Trabalhai por essa que há de ser a salvação nossa. Mas

81 decoro. – No manuscrito se lê decóro, sinal da pronúncia aberta que Rui daria

ao o tônico do vocábulo.

51

não buscando salvadores. Ainda vos podereis salvar a vós mesmos.

Não é sonho, meus amigos: bem sinto eu, nas pulsações do sangue,

essa ressurreição ansiada. Oxalá não se me fechem os olhos, antes

de lhe ver os primeiros indícios no horizonte. Assim o queira Deus.

Composto na Casa de Rui Barbosa com

fontes Sabon Linotype 10/13.

Acabou−se de imprimir em dezembro de 1999.

2 comentários em ““Oração aos Moços” – Rui Barbosa

  1. FOI AUNICA VERDADE QUE JA LHE E O UNICO JUSTO QUE JA VI FALAR DEOIS CRISTO

  2. vidaamorenegocios disse:

    Sim. Mas não se exclua de entre os justos. Se você está ligado, enxertado, a Jesus Cristo, você está justificado, pois não é o que o humano, sempre falho, faz para Deus, A Vida, que o justifica, mas o que Deus, A Verdade, faz, sempre perfeito e eterno, para o humano. Quando crianças, nenhum de nós voltavamos para dentro de casa porque estavamos limpinhos e sem machucados após brincar no quintal ou na rua, voltavavamos porque eramos filhos de nossos pais, a casa era deles e era a nossa casa.

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